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Como estimular a criatividade e fazer mais trabalhando menos
2017-06-08
Um novo livro defende o ato de "Descansar" como "a razão pela qual conseguimos fazer mais quando trabalhamos menos". Publicamos um capítulo em exclusivo dedicado ao exemplo de grandes génios.
Quando se examinam as vidas das figuras mais criativas da história, somos de imediato confrontados com um paradoxo: organizam as suas vidas em torno do trabalho, mas não os seus dias.
Figuras tão diferentes como Charles Dickens, Henri Poincaré e Ingmar Bergman, trabalhando em áreas díspares em alturas diferentes, partilhavam todos a paixão pelo seu trabalho, uma fantástica ambição em ter sucesso e uma capacidade quase sobre-humana para se concentrarem. No entanto, quando se olha de perto para as suas vidas quotidianas, apenas passavam algumas horas por dia a fazer o que poderíamos reconhecer como o seu trabalho mais importante. Durante o resto do tempo, trepavam montanhas, dormiam sestas, davam passeios com os amigos ou ficavam sentados a pensar. A sua criatividade e a sua produtividade, por outras palavras, não eram o resultado de infindas horas de labor. As suas imponentes realizações criativas resultam de modestas horas de “trabalho”.
Como conseguiam ser tão produtivos? Poderá uma geração educada a acreditar que as semanas de 80 horas de trabalho são necessárias para o êxito aprender algo com as vidas de pessoas que realizaram Morangos Silvestres, estabeleceram os alicerces da teoria do caos e da topologia e escreveram Grandes Esperanças?
Penso que sim. Se algumas das maiores figuras da história não trabalhavam horas imensas, talvez a chave para descobrir o segredo da sua criatividade resida em compreender não apenas como trabalhavam, mas como repousavam e como as duas coisas se relacionam.
Comecemos por olhar para as vidas de duas figuras. Ambos eram muito talentosos nas suas áreas. Convenientemente, eram vizinhos próximos e amigos, na aldeia de Downe, a sudeste de Londres. E, de formas diferentes, as suas vidas oferecem um acesso à questão de como o trabalho, o repouso e a criatividade se ligam.
Primeiro, imaginemos uma figura silenciosa, de capa, percorrendo o caminho para casa que serpenteia pelo meio do campo. Nalgumas manhãs, caminha de cabeça baixa, aparentemente perdido nos seus pensamentos. Noutras, caminha devagar e pára ouvindo os bosques em seu redor, um hábito “que praticara nas florestas tropicais do Brasil”, como naturalista da Royal Navy, recolhendo animais, estudando a geografia e a geologia da América do Sul e estabelecendo o alicerce de uma carreira que atingiria o seu pico com a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. Agora, Charles Darwin está mais velho e voltou-se da recolha para a teorização. A capacidade de Darwin de se mover silenciosamente reflete a sua própria concentração e necessidade de sossego. Na verdade, disse o seu filho Francis, Darwin conseguia mover-se tão furtivamente que uma vez se deparou com “uma raposa que brincava com as suas crias apenas a alguns metros de distância” e muitas vezes saudava as raposas que regressavam a casa após as suas caçadas noturnas.
Se essas mesmas raposas se cruzassem com o vizinho de Darwin da porta ao lado, o baronete John Lubbock, teriam fugido a sete pés. Lubbock gostava de iniciar o dia com uma batida pelos campos com os seus cães de caça. Se Darwin se parecia um pouco com o senhor Bennet de Orgulho e Preconceito, um respeitável cavalheiro de posses medianas, educado e escrupuloso, mas que preferia a companhia da família e dos livros, Lubbock era mais como o senhor Bingley, extrovertido e entusiástico e suficientemente rico para se mover com facilidade na sociedade e na vida. Conforme envelhecia, Darwin era afligido por vários padecimentos; mesmo aos 60 e tal anos, Lubbock continuava a possuir “a mesma graça de modos de salão, peculiar a um rapaz da elite de Eton”, de acordo com alguém que o visitou. Mas os vizinhos partilhavam o amor pela ciência, mesmo apesar de as suas vidas de trabalho serem tão diferentes quanto as suas personalidades.
Após o seu passeio matinal e o pequeno-almoço, Darwin ia para o seu gabinete às oito horas e trabalhava exatamente uma hora e meia. Às nove e trinta, lia o correio da manhã e escrevia cartas. Downe era suficientemente afastada de Londres para desencorajar visitas ocasionais, mas suficientemente próxima para permitir que o correio da manhã chegasse aos correspondentes e aos colegas na cidade em apenas algumas horas. Às dez e trinta, Darwin regressava ao trabalho mais sério, indo por vezes ao viveiro, à estufa, ou a outro dos vários edifícios onde conduzia as suas experiências. Ao meio-dia, declarava “Fiz um bom dia de trabalho” e iniciava um longo passeio pelo Sandwalk, um caminho que traçara não muito depois de ter comprado a Down House. (Parte do Sandwalk atravessava terreno alugado a Darwin pela família Lubbock.) Quando regressava, após uma hora ou mais, Darwin almoçava e escrevia mais cartas. Às três, retirava-se para uma sesta; uma hora mais tarde, levantava-se, dava mais um passeio pelo Sandwalk e depois regressava ao gabinete até às cinco e meia, quando se juntava à esposa, Emma, e à sua família, para jantar. Com este horário, escreveu 19 livros, incluindo volumes técnicos sobre trepadeiras, cirrípedes e outros assuntos, o controverso A Origem do Homem e A Origem das Espécies, provavelmente o mais famoso livro da história da ciência e que ainda afeta como pensamos acerca da natureza e de nós próprios.